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quinta-feira, 9 de março de 2017

H. P. Lovercraft: Autobiografia e Notas Sobre a Escritura de Contos Fantásticos

Li uma das Coletâneas de Contos de H. P. Lovercraft e achei sensacional algumas notas que ele deixou no final do livro e resolvi transmiti-las a vocês que curtem o RcL©

Abaixo vou deixar também uma Carta que enviou a Resposta. Michael que é praticamente uma autobiografia, achei legal compreender um pouco a cabeça de Lovercraft, influenciador​ do grande mestre King!

Notas sobre a escritura de contos fantásticos

O que me leva a escrever contos é a satisfação de visualizar com maior clareza, detalhe e estabilidade as impressões vagas, efêmeras e fragmentárias de assombro, beleza e expectativa aventureira que me são comunicadas por visões (cênicas, arquitetônicas, atmosféricas etc.), ideias, acontecimentos e imagens presentes na arte e na literatura. Escolhi os contos fantásticos porque melhor se adaptam à minha inclinação — um dos meus desejos mais ardentes e perenes é criar, por alguns instantes, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos irritantes limites impostos pelo tempo, pelo espaço e pelas leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustram nossa curiosidade relativa aos espaços cósmicos infinitos além do alcance de nossa visão e de nossa análise. Esses contos muitas vezes enfatizam o elemento de horror porque o medo é nossa emoção mais profunda e mais intensa, e também a que mais se presta à criação de ilusões que desafiem a Natureza.

O horror e o desconhecido, ou o estranho, mantêm sempre uma relação muito estreita, de modo que é difícil pintar um retrato convincente do esfacelamento das leis naturais ou da estranheza ou singularidade cósmica sem destacar a emoção do medo.

O tempo assume um papel importante em muitas das minhas histórias porque é o elemento que assoma na minha imaginação como sendo aquele que evoca os dramas mais profundos e os terrores mais sinistros do universo. A batalha contra o tempo parece-me ser o tema mais poderoso e mais fértil de toda a expressão humana.

Embora a forma que escolhi para as minhas histórias seja sem dúvida especial e talvez limitada, não deixa de ser um modo persistente e permanente de expressão, tão antigo quanto a própria literatura. Sempre haverá um número diminuto de pessoas que sentem uma curiosidade ardente a respeito do espaço sideral desconhecido e um desejo ardente de escapar da prisão do conhecido e do real rumo às terras encantadas de incríveis aventuras e possibilidades infinitas aonde os sonhos nos transportam, e que os bosques densos, as fantásticas torres urbanas e os pôres do sol chamejantes sugerem-nos por breves instantes. Essas pessoas incluem grandes autores e também amadores insignificantes como eu — sendo Dunsany, Poe, Arthur Machen, M.R. James, Algernon Blackwood e Walter de la Mare os mestres do gênero.

Em relação ao modo como escrevo um conto — não existe um método único. Cada um dos meus contos tem uma história diferente. Por uma ou duas vezes fiz o relato literal de um sonho; mas, em geral, começo com uma ambientação ou uma ideia ou uma imagem que desejo expressar e então trabalho-a na minha imaginação até que me ocorra uma forma plausível de materializá-la em uma cadeia de acontecimentos dramáticos passível de ser registrada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições básicas ou das situações que mais se prestam à ambientação ou à ideia ou à imagem e então começo a especular sobre as explicações lógicas e racionais para a ambientação ou ideia ou imagem, tendo em vista a condição básica ou a situação escolhida.

O processo de escritura, claro, é tão variado quanto a escolha do tema e da ideia inicial; mas se as histórias de todos os meus contos fossem analisadas, é possível que as seguintes regras pudessem ser abstraídas a partir do procedimento padrão:

Prepare uma sinopse ou um cenário para os acontecimentos na ordem em que ocorreram — não na ordem da narrativa. Descreva com riqueza suficiente para contemplar todos os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e estimativas das consequências às vezes são desejáveis nessa estrutura temporária.

Prepare uma segunda sinopse ou cenário para os acontecimentos — agora na ordem da narrativa (não na ordem de ocorrência), com grande riqueza de detalhes e notas relativas a mudanças de perspectiva, ênfases e clímax. Faça as alterações necessárias na sinopse original caso essa mudança aumente o impacto dramático ou a eficácia geral do conto. Interpole ou exclua incidentes à vontade — não se prenda jamais à ideia original, mesmo que o resultado seja um conto absolutamente diferente do planejado. Faça acréscimos e alterações na medida em que ocorrerem durante o processo de formulação.

Escreva todo o conto — depressa, com fluência e sem tecer muitas críticas — de acordo com a segunda sinopse, na ordem da narrativa. Altere os incidentes e o enredo sempre que o andamento do processo sugerir alterações, sem jamais se ater a qualquer esquema prévio. Se em algum ponto o desenvolvimento revelar novas oportunidades de efeito dramático ou de narração vívida, faça os acréscimos necessários — depois volte atrás e reconcilie as partes preexistentes com o novo plano. Acrescente e exclua seções inteiras de acordo com o necessário ou com o desejado, tentando diferentes inícios e fins até encontrar o melhor arranjo. Certifique-se de que todas as referências ao longo da história estejam completamente adaptadas ao esquema final. Remova todas as excrescências possíveis — palavras, frases, parágrafos ou mesmo episódios e elementos inteiros —, tomando as precauções habituais em relação a conciliar todas as referências.

Revise todo o texto, com especial atenção ao vocabulário, à sintaxe, ao ritmo da prosa, à proporcionalidade das partes, às sutilezas do tom, à graça e ao poder persuasivo das transições (de uma cena a outra, da ação lenta e detalhada à ação rápida e superficial e vice-versa… etc., etc., etc.), à eficácia do início, do fim, dos clímaxes etc., ao suspense e ao interesse dramático, à plausibilidade, à atmosfera e a vários outros elementos.
Prepare uma cópia datilografada — acrescentando revisões finais conforme o necessário.

O primeiro estágio muitas vezes é puramente mental — trabalho com um conjunto de variáveis e acontecimentos na minha imaginação e não escrevo nenhuma palavra até que me sinta capaz de preparar uma sinopse detalhada dos acontecimentos na ordem da narrativa. Mas é verdade que às vezes começo a escrever antes mesmo de saber como desenvolver a ideia — assim, este começo constitui um problema a ser motivado e explorado.

Creio que existem quatro tipos distintos de conto fantástico; um que expressa uma ambientação ou uma impressão, outro que expressa uma composição pictórica, um terceiro que expressa uma situação, condição, lenda ou composição intelectual, e um quarto que explica um quadro determinado ou uma situação dramática ou clímax específico. De outro modo, os contos fantásticos podem ser agrupados em duas categorias amplas — aqueles em que o portento ou o horror refere-se a alguma condição ou fenômeno e aqueles em que se refere a uma ação humana relacionada a uma condição ou fenômeno bizarro.

Os contos fantásticos — em particular os de horror — parecem depender de cinco elementos bem definidos: (a) um horror ou uma anormalidade subjacente — uma condição, entidade etc., (b) os efeitos gerais e consequências do horror, (c) a forma da manifestação — o objeto que corporifica o horror e os fenômenos observados, (d) as reações de medo que pertencem ao domínio do horror e (e) os efeitos específicos do horror em relação ao conjunto de condições dadas.

Ao escrever um conto fantástico, sempre empenho o maior cuidado para obter a ambientação e a atmosfera desejadas e enfatizar os pontos críticos da história. É impossível, salvo no charlatanismo ficcional mais imaturo, apresentar o relato de fenômenos impossíveis, improváveis ou inconcebíveis como uma narrativa ordinária de ações objetivas e emoções convencionais. Acontecimentos e condições inconcebíveis apresentam-se como um obstáculo a ser transposto, o que só pode ser feito por meio da manutenção de um realismo minucioso em todas as partes da história, exceto naquela em que se aborda o prodígio em questão. O portento deve receber um tratamento deliberado e impressionante — com uma atenta preparação emocional — sob pena de soar banal e pouco convincente. Sendo o principal elemento da história, sua mera existência deve obscurecer todos os demais personagens e acontecimentos. Mas os personagens e acontecimentos devem ser consistentes e naturais, exceto quando deparam-se com o singular portento. Em relação a este prodígio central, os personagens devem manifestar as mesmas emoções incontroláveis que personagens semelhantes manifestariam diante de tal prodígio na vida real. Um prodígio não pode jamais ser tratado com indiferença.

Mesmo quando os personagens têm alguma familiaridade com o prodígio, tento comunicar um espanto e uma grandeza análogos aos que o leitor deve sentir. Um estilo casual arruína qualquer fantasia com pretensões sérias.

A atmosfera, e não a ação, é o grande desideratum da ficção fantástica. Em verdade, tudo o que um conto maravilhoso almeja é pintar o retrato convincente de um determinado sentimento humano. No momento em que tenta fazer qualquer outra coisa, o conto torna-se barato, pueril e irrelevante. Deve-se dar ênfase à insinuação sutil — pistas e pinceladas discretas relativas a detalhes associativos que expressem diferentes tonalidades de sentimento e componham a vaga ilusão da estranha realidade do elemento irreal. Evite listas inócuas de acontecimentos fantásticos sem nenhuma substância ou relevância senão como nuvens de cor e simbolismo.

Eis as regras e padrões que sigo — de forma consciente ou inconsciente — desde que me propus a escrever contos fantásticos. O sucesso de minhas obras pode muito bem ser disputado — mas estou certo de que, houvesse eu ignorado as considerações feitas nos parágrafos precedentes, seriam muito inferiores ao que são.

Carta a R. Michael

Quanto a mim e às condições em que escrevo — temo serem assuntos um tanto insignificantes, uma vez que, a despeito de meus gostos excêntricos, em verdade sou um indivíduo deveras medíocre e desinteressante que mal produziu qualquer coisa que se possa chamar de literatura. Contudo — eis aqui alguns dados.

Sou uma criatura prosaica de meia-idade prestes a fazer 39 anos no dia 20 do mês próximo — natural de Providence, de uma antiga família de Rhode Island por parte de mãe e um pouco mais inglês por parte de pai. Nasci na parte leste do antigo distrito colonial, de modo que eu podia olhar para o Oeste em direção a ruas pavimentadas e para o Leste em direção a prados verdejantes e bosques e vales.

Por força de minha herança campestre, eu olhava a Leste com maior frequência do que a Oeste; de modo que até hoje sou três-quartos rústico.

Neste instante, encontro-me sentado às margens verdejantes do rio cintilante que meus primeiros olhares conheceram e amaram. Esta parte do mundo de minha infância permanece imutável porque faz parte do sistema de parques local — louvados sejam os deuses por manterem imaculadas as cenas que a minha tenra fantasia povoou com faunos e sátiros e dríades!

Meu gosto por coisas estranhas começou muito cedo, pois sempre tive uma imaginação absolutamente descontrolada. Eu sentia medo do escuro até o meu avô curar-me ao fazer com que eu caminhasse por cômodos e corredores vazios à noite, e tinha uma tendência natural a urdir fantasias em torno de tudo o que via. Muito cedo, também, surgiu o gosto por coisas antigas que é uma parte tão característica de minha personalidade atual.

Providence é uma cidade antiga e pitoresca, inicialmente construída em uma encosta íngreme pela qual ainda enveredam as vielas da época colonial com vãos de entrada entalhados, providos de claraboias, lances duplos de escada com corrimãos de ferro e afilados coruchéus georgianos. Este ancestral precipício vertiginoso situa-se entre a área residencial e o distrito financeiro, e os relances que dele tive na meninice instilaram-me uma profunda reverência pelo passado — a época das perucas e tricornes e livros encadernados em couro com ss longos.

Meu gosto por estes últimos viu-se fomentado pela existência dos inúmeros exemplares na biblioteca de minha família — a maioria deles em um quartinho sem janelas, no sótão, onde eu tinha um pouco de medo de entrar sozinho, embora o terror potencial na verdade aumentasse os encantos dos vetustos tomos que lá encontrei e li.

Coisas estranhas sempre me cativaram mais do que quaisquer outras — desde o princípio. De todas as histórias que nos contam durante a infância, as fábulas e lendas de bruxas e fantasmas deixaram as impressões mais profundas. Comecei a ler ainda pequeno — aos quatro anos — e as fábulas dos irmãos Grimm foram minha primeira leitura contínua. Aos cinco anos li As mil e uma noites e fiquei absolutamente deslumbrado. Minha mãe preparou um canto árabe em meu quarto — com tapeçarias, lamparinas e objetos de arte comprados no “Damascus Bazaar” da vizinhança — e assumi a identidade fictícia de Abdul Alhazred; um nome que desde então celebro em minha fantasia, e que em tempos recentes usei para designar o autor do lendário Al Azif ou Necronomicon.

Por volta dos seis anos interessei-me pela mitologia greco-romana, à qual aos poucos fui levado pelo Wonder Book e pelos Tanglewood Tales de Nathaniel Hawthorne, bem como por um exemplar perdido da Odisseia na Half-Hour Series da Harper. Desmontei incontinente o meu cantinho de Bagdá e tornei-me um romano — voltando-me à Idade da fábula de Bulfinch e aos assombrosos museus de belas-artes aqui e em Boston. Foi por esta época que comecei minhas grosseiras tentativas no gênero literário.

Aprendi a escrever no papel — em letra de forma — assim que aprendi a ler; mas não tentei nenhuma composição original até a época de meu sexto aniversário, quando, a muito custo, dominei a arte de escrever em letras cursivas.

Curiosamente, a primeira coisa que escrevi foi em verso; uma vez que sempre tive um bom ouvido para o ritmo e ainda pequeno houvesse estudado um livro antigo sobre “Composição, rhetorica e syllabas poeticas” impresso em 1797 e usado pelo meu trisavô na East Greenwich Academy em idos de 1805.
Os primeiros versos infantis dos quais me recordo são “The Adventures of Ulysses”; ou, “The New Odyssey”, escritos quando eu tinha sete anos. Este começava:

Na noite escura, vê a bravura do campeão da guerra
Que voga ao lar, co’a glória a ecoar, e a esposa aguarda em terra.

No embate vil, o muro ruiu, e Tróia está acabada.

Mas no caminho o deus marinho engendra-lhe ciladas.

Na época a mitologia era o meu alimento, e eu chegava quase a acreditar nos deuses gregos e romanos — imaginava vislumbrar faunos e sátiros e dríades ao crepúsculo nos bosques de carvalho onde agora mesmo estou sentado.

Quando eu tinha cerca de 7 anos, por obra de meus devaneios mitológicos eu queria ser — não apenas ver — um fauno ou um sátiro. Em geral imaginava que a parte superior das minhas orelhas começava a afilar-se e que sinais de chifres incipientes começavam a surgir em minha fronte — e deplorava o fato de que meus pés levassem tanto tempo para transformar-se em cascos! De todos os jovens pagãos, eu era o mais obstinado. A catequese — que comecei a frequentar aos cinco anos — não me impressionou em nada (embora eu amasse a antiga graça georgiana da igreja hereditária de que minha mãe era adepta, a imponente First Baptist, construída em 1775); e eu chocava a todos com minhas inclinações pagãs — a princípio declarei-me muçulmano e, mais tarde, romano pagão. Cheguei de fato a construir altares em honra de Pã, Jove, Minerva e Apolo, e sacrifiquei pequenos objetos em meio ao odor de incenso. Quando, um pouco mais tarde, a ciência obrigou-me a descartar este paganismo infantil, tornei-me um ateu materialista radical.

Desde então dedico-me um bocado à filosofia e não vejo nenhuma razão que justifique crenças em qualquer forma de mundo espiritual ou sobrenatural.

Tudo indica que o cosmo seja uma eterna massa de forças em constante mudança e interação; que o atual universo visível, nossa minúscula Terra e nossa raça de seres orgânicos inferiores formem apenas um incidente transitório e desprezível. Assim, minha concepção séria da realidade é dinamicamente oposta à posição fantástica que assumo como esteta. Em estética, nada me atrai mais do que a ideia de estranhas suspensões das leis naturais — vislumbres bizarros de mundos de horror ancestral e dimensões anômalas, e insinuações de longínquos abismos desconhecidos nos limites do cosmo desconhecido. Creio que esse tipo de coisa fascina-me ainda mais porque não lhe dou o menor crédito!

Bem — comecei a escrever contos fantásticos aos 7 ou 8 anos, quando tive o primeiro contato com meu ídolo Poe. Mas o material era demasiado ruim, e foi em boa parte destruído; porém ainda tenho dois exemplares ridículos que escrevi aos 8 anos — “The Secret of the Grave” e “The Mysterious Ship”. Não escrevi nenhum conto aceitável antes dos 14 anos. Entre os 8 e 9 anos, meus interesses sofreram uma grande reviravolta, e tomei-me de entusiasmo pelas ciências — em particular, pela química. Eu tinha um laboratório no porão e gastava toda a minha mesada em instrumentos e livros científicos.

Nesta fantasia eu contava com o incentivo de minha mãe e de meu avô (meu pai já falecera), uma vez que eu era muito doente — quase um inválido por conta de meus nervos.

Aos 7 anos comecei a estudar violino, mas aborreci-me com o instrumento 2 anos mais tarde e desde então tenho um gosto musical duvidoso. Muitas vezes eu não podia frequentar a escola, mas recebi educação em casa, da minha mãe, das minhas tias e do meu avô, e mais tarde tive um tutor. Vez por outra tive breves relances da escola, e consegui frequentar o ginásio por quatro anos — mesmo que o esforço tenha provocado uma crise nervosa tão aguda que não pude entrar para a universidade. De fato, minha saúde só melhorou oito ou nove anos atrás — embora agora, por mais estranho que seja, eu pareça estar me transformando em um velho pássaro robusto e magro!

O período da juventude que dediquei à ciência mostrou-se longo; embora ao mesmo tempo eu me dedicasse à literatura e também brincasse como outra criança qualquer. Eu não tinha nenhum interesse por jogos ou esportes, que hoje tampouco me interessam — mas gostava de brincadeiras que incluíssem algum elemento de interpretação dramática; guerra, polícia, fora-da-lei, estradas de ferro etc. Aos poucos, da química passei à geografia e por fim à astronomia, que me fascinaria e influenciaria o meu modo de pensar mais do que qualquer outra coisa em qualquer outra época. Obtive um pequeno telescópio — que ainda guardo — e comecei a escrever com grande entusiasmo sobre as esferas celestes.

Ainda tenho alguns de meus velhos manuscritos e uma cópia mimeografada do meu periódico juvenil “The Rhode Island Journal of Astronomy”. Ao mesmo tempo minhas inclinações ao antiquariato faziam-se notar cada vez mais.

Vivendo em uma cidade antiga em meio a livros antigos, tomei Addison, Hope e o dr. Johnson por modelos na prosa e no verso; eu literalmente vivia naquele mundo emperucado, ignorando o mundo presente. Quando eu tinha 14 anos meu avô faleceu; e no caos financeiro que sobreveio, a casa onde nasci precisou ser vendida. A dupla perda tisnou-me com uma melancolia que custou a passar; pois tenho afinidades geográficas demasiado fortes, e venerava cada centímetro da casa, do pátio, que mais parecia um parque, das estranhas fundações e do estábulo à sombra onde eu passara a minha juventude. Por muito tempo sonhei em recomprar a casa “quando eu enriquecesse” — mas, passados alguns anos, percebi que eu não tinha o menor instinto aquisitivo nem as habilidades necessárias ao sucesso financeiro.

Eu e o comercialismo não temos quase nada em comum, e desde aquele triste ano de 1904 levo uma vida de limitações e penúria cada vez maiores.

Antes da morte da minha mãe, tínhamos um apartamento próximo à antiga casa. Logo vieram malfadadas excursões a outros lugares, incluindo dois anos em Nova York, cidade que aprendi a detestar como se fosse veneno. Agora tenho um quarto em um silencioso recanto vitoriano no pico do velho morro de Providence — em uma tranquila vizinhança antiga que tem a aparência exata da área residencial de um vilarejo adormecido.

Minha tia mais velha — com a saúde frágil e incapaz de cuidar da casa — ocupa um quarto na mesma residência; e uma vez que tanto ela como eu guardamos o máximo possível dos antigos móveis, fotografias e livros (os quartos são muito amplos), ainda temos muito da antiga atmosfera familiar por aqui.

Sabendo que jamais serei rico, dar-me-ei por satisfeito se puder ficar aqui até o fim dos meus dias — em um lugar tranquilo como as minhas mais tenras lembranças, de onde posso ir a pé aos bosques, aos campos e à beira dos rios onde passei a minha infância. Minha principal ocupação remunerada é a revisão profissional de prosa e verso para outros escritores — uma tarefa odiosa, porém mais garantida do que os riscos da escrita original para os que não produzem obras populares e comerciais.

Escrevo meus próprios contos quando tenho oportunidade, o que não ocorre com a frequência que eu gostaria.

Sempre que possível, carrego meus aprestos em uma pasta de couro preto a fim de escrever ao ar livre — ora nas margens verdejantes do rio que tanto amo, ora no cenário mais selvagem ao norte de Providence. Meu único passatempo puramente recreativo são viagens históricas — visitar outras cidades antigas e estudar espécimes de arquitetura colonial. O parco conteúdo de minha carteira torna as viagens um tanto limitadas, mas de qualquer modo consegui percorrer um pequeno trajeto histórico de Vermont à Virgínia nos últimos anos.

As primeiras coisas que publiquei foram uma série mensal de artigos sobre astronomia em um jornal de Providence. Eu tinha 16 anos na época e sem dúvida senti-me importante. Neste mesmo período, comecei a duvidar de meu talento ficcional e dediquei-me à versificação. Aos 18 anos resolvi que eu não sabia escrever narrativas e queimei todos os meus contos salvo alguns grotescos experimentos infantis e duas peças mais recentes — “The Beast in the Cave” e “The Alchemist”. Não me arrependo em nada, pois o material era imaturo ao ponto de causar irritação.

Mas o que mais faz com que eu me sinta ridículo é o modo solene com que eu encarava meus versos — pois a bem dizer eu nunca fui nem jamais serei poeta!

Minhas ilusões persistiram porque na época eu era um semi-inválido e praticamente um recluso, de modo que não recebi muitas críticas salutares.

Então — aos 24 anos — juntei-me a uma associação literária amadora cujas atividades eram conduzidas por correspondência; e assim obtive grandes incentivos e muitas sugestões críticas. Quisera eu que hoje a organização ainda fosse tão ativa quanto naquela época — mas infelizmente ela encontra-se às portas da morte, sem nenhuma chance de melhora. Neste ponto as minhas ambições, que desviaram-se da ciência para a literatura quando ficou claro que a saúde frágil não me facultaria empenhar os esforços necessários às pesquisas astronômicas ou químicas, tornaram-se mais claras; e pouco a pouco vi que a prosa, e não o verso, era o meu ambiente natural. Ao mesmo tempo, as mais patentes excentricidades do século XVIII começaram a afastar-se do meu estilo.

Em 1916, permiti que um dos editores amadores no meu círculo literário publicasse um dos dois contos que eu salvara do desastre em 1908; e logo a seguir um amigo disse-me que a ficção fantástica era o meu único forte — o único ponto em que eu teria chances de chegar efetivamente ao nível da legítima criação artística.

A princípio fiquei um tanto incrédulo, pois eu desconfiava do valor de meus contos; mas fui persuadido a fazer mais uma tentativa após meu silêncio ficcional de 9 anos. Os resultados foram “A tumba” e “Dagon”, escritos respectivamente em junho e julho de 1917. Eu receava que a falta de prática recente no gênero narrativo resultasse em fracasso, mas logo me asseguraram que ambos eram muito superiores aos dois contos remanescentes de minha juventude.

Então comecei a trabalhar a sério, produzindo um número considerável de novas histórias das quais aproveitei cerca de 7/8. Eu não tinha nenhuma ideia a respeito do mercado profissional até a fundação da Weird Tales — e ainda duvido de que outra publicação fosse aceitar contribuições regulares de minha autoria.

Elas não parecem más ao lado do lixo indescritível que constitui grande parte do conteúdo da W. T., mas temo que eu não fosse me sair tão bem como escritor literário — ao lado da grande literatura de Poe, Machen, Blackwood, James, Bierce, Dunsany, De la Mare e assim por diante.

A maior honra que recebi até agora foi uma menção com três estrelas e uma nota biográfica no volume “Best Short Stories of 1928” editado por O’Brien — por conta de meu “A cor que caiu do espaço”.
Bem — acho que é tudo a meu respeito! Pouca coisa, mas você pode ver como um velho envaidecido pode tornar-se prolixo quando alguém o incita a falar sobre si!

Sou um sujeito assim — um cético materialista com gostos clássicos e tradicionais; afeito ao passado e a suas relíquias e tradições, convicto de que a única busca de sentido digna de um homem neste universo caótico é a busca dos prazeres requintados e inteligentes que se obtêm mediante uma vívida existência mental e imaginativa. Uma vez que não creio em valores absolutos, aceito os valores estéticos do passado como os únicos pontos de referência disponíveis — os únicos valores relativos trabalháveis — em um universo de outro modo conturbado e insatisfatório.

Assim, sou ultraconservador em termos sociais, artísticos e políticos e, ao mesmo tempo, apesar dos meus 39 anos, um modernista radical em todos os assuntos científicos e filosóficos. Como amante da liberdade ilusória do mito e do sonho, entrego-me à literatura escapista; da mesma forma, como amante do passado, pinto minhas ideias com a paleta do antiquário.

Meu período moderno favorito é o século XVIII; meu período antigo favorito, o intocado mundo viril da Roma republicana. Não consigo interessar-me pela Idade Média — até a mágica e os mitos daquela época desolada parecem-me demasiado ingênuos para soarem convincentes.

Voltando ao meu amor por abandonar o mundo real em direção a um mundo imaginário, prefiro o dia à noite quando não estou no campo aberto. Da mesma forma, minhas horas são terríveis e maravilhosas em casa — em geral, de pé ao pôr do sol e na cama pela manhã.
É raro eu estar na rua tarde — mas raro estar de pé cedo! No inverno eu literalmente hiberno, pois tenho uma sensibilidade extrema ao frio. A menor friagem me derruba! Por outro lado, não sei o que é passar calor. O aperto só começa quando faz 35 à sombra!

No geral, sou quase um eremita, como fui em minha juventude. A maioria dos meus contatos literários — um “time” bastante agradável com nomes que você reconhecerá dos sumários da W. T. (Frank Belknap Long Jr., Donald Wandrei, Clark Ashton Smith, H. Warner Munn, Wilfred B. Talman, August W. Derleth etc., etc.) — moram em outras localidades, e estou ficando velho demais para apreciar conversas que fujam aos meus assuntos favoritos.

A velhice levou-me cedo. Meu temperamento é o mesmo de 20 anos atrás, e também será o mesmo daqui a 20 anos, caso eu viva até lá. Quanto à escrita — em geral sei o que pretendo dizer antes de iniciar um conto, porém muitas vezes altero o enredo no meio do caminho se a pena sugere-me novas ideias. Escrevo sempre em letra cursiva — não consigo sequer pensar com uma maldita máquina à minha frente — e faço correções minuciosas.

A grande rapidez com que escrevo material não destinado a publicação dá lugar a uma cautela muito vagarosa quando enceto um novo texto sério em prosa. Dedico muita atenção aos detalhes, inclusive ao ritmo e às sutilezas do tom; embora meu grande objetivo seja alcançar a máxima simplicidade — a arte que esconde a arte. Em geral, dedico três dias a um conto de extensão média — em sessões de duração variável. Não gosto de interromper meus pensamentos, então não admito que nenhuma outra tarefa me distraia.

Escrevo apenas quando o clamor íntimo pela expressão torna-se irresistível. Nada me inspira maior desprezo do que a escrita forçada ou mecânica ou comercial. A não ser que se tenha algo a dizer, deve-se permanecer calado! Tenho uma agenda onde anoto ideias estranhas e enredos rudimentares para uso posterior, e também um arquivo de notícias estranhas de jornal que uso como possível fonte de inspiração. Uns poucos contos foram baseados em sonhos — os meus são muito estranhos e fantásticos. Na juventude eu tinha mais pesadelos do que tenho agora — aos seis anos encontrava com bastante frequência terríveis demônios dos sonhos que chamei de “noctétricos”.

Usei-os em uma das minhas histórias. Tenho as melhores ideias entre as duas da madrugada e o amanhecer.
O que mais temo é datilografar os meus manuscritos, pois abomino a visão e o som das máquinas. Não tenho como delegar o serviço a outros, pois ninguém é capaz de ler meus originais cheios de rabiscos, entrelinhas e inúmeras correções. Às vezes nem eu mesmo consigo decifrá-los!

Mas creio que agora não resta muito a dizer sobre o suposto autor ou suas efusões!

Por fim, devo pedir desculpas por este arroubo de prolixidade senil! É assim que a velhice manifesta-se ante uma oportunidade de recordar épocas passadas — em especial quando o cenário relembra o passado de maneira tão intensa como as margens deste rio.
Mas o ocidente fulgura com o sol que parte, e acima das copas ancestrais a alongada foice prateada da jovem lua perturba. Preciso ir para casa…

20 de julho de 1929

Resenhando Com Luke ®

Fonte: Livro: O Chamado de Chlutlu e Outros Contos

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Richard Bachman: A História



Richard Bachman é o pseudônimo que Stephen King usou para escrever alguns romances, com duas intenções: a primeira, de descobrir se as vendagens de seus livros se davam pelo seu talento como escritor, ou apenas pela fama de seu nome/sorte (para isso, propositalmente, Stephen lançava seus livros de Bachman sempre com o menor marketing possível). A segunda: poder publicar mais livros, uma vez que, de acordo com as editoras, era comercialmente nocivo ficar inflando o mercado com vários livros do mesmo autor em um único ano (e, como sabemos, no começo de sua carreira, King gostava de publicar vários livros ao ano). O alter-ego de King é conhecido por escrever histórias cujo sobrenatural é pouco ou quase nulo, focando essencialmente nos personagens que, em 90% de seus livros, vivem algum drama que poderia, teoricamente falando, acontecer com qualquer pessoa (a exceção seria Os Justiceiros).

Existe uma outra característica nos livros de Bachman, que não vem ao caso revelar por se tratar de um spoiler, mas os leitores fiéis provavelmente adivinharão que característica é esta. Apesar disto, os romances de Bachman são escritos de maneira excelente. King escreveu um punhado destes livros, e mesmo após ser desmascarado, deu um jeitinho de continuar a soltar aqui e acolá alguma história de seu pseudônimo.

Como já mencionado, durante os anos 70, determinado a provar a si mesmo que suas vendagens se davam pelo seu talento e não por sorte ou fama, Stephen King criou “Gus Pilsbury”, com a intenção de usar tal nome (batizado em homenagem ao seu avô, que tinha o mesmo nome) para escrever outras histórias mais pesadas e menos “pop” do que as que já escrevia na época. Antes de lançar Fúria, King acabou mudando de ideia quanto ao nome que deveria usar para assinar o livro. O nome selecionado foi uma homenagem ao autor de romances de crime, Donald E. Westlake, que também possuía um pseudônimo: Richard Stark. O sobrenome Bachman, segundo reza a lenda, veio da Bachman-Turner Overdrive, uma banda que King escutava no momento em que pensava no assunto. 

Uma outra curiosidade é que King ainda aproveitou o pseudônimo de Westlake em 1989, quando publicou A Metade Negra (romance que foi dedicado a Richard Bachman), onde a relação Stephen King/Richard Bachman refletia a de Thad Beaumont/George Stark (tirando a parte em que o pseudônimo se materializava de verdade, querendo se vingar de seu criador, é claro).

Obviamente, não demorou muito para que os leitores de Bachman lentamente fossem associando o autor a Stephen King, que sempre negava veementemente ser o tal. Apesar disto, como provocação, King sempre deixava algumas pistas em suas obras que apontavam a verdadeira identidade de Bachman. Um bom exemplo é o uso da fictícia cidade “Gates Falls”, como cenário para Fúria, cidade esta que já havia usada no conto “Último Turno”, do livro Sombras da Noite. Já em A Maldição, um dos personagens faz menção ao próprio Stephen King, o que pode ser tanto interpretado como uma dica, quanto uma jogada para tentar livrar seu nome. Não funcionou.

A Maldição foi basicamente o livro que assassinou seu autor. Foi por causa dele que o segredo de King foi descoberto: um rapaz chamado Steve Brown, que trabalhava como balconista de uma livraria, começou a fazer as conexões, que todos já faziam, entre Bachman e King. Porém, inconformado com as negativas de Stephen, Brown resolveu cavar fundo em uma investigação que o levou até a Library of Congress (Biblioteca do Congresso), localizada em Washington, D.C. Lá, Brown acabou por encontrar um documento de direitos autorais que responsabilizava Stephen King pela publicação de Fúria. Brown tirou cópias dos documentos e os mandou, juntamente com uma carta, para a editora de King (que na época ainda era a Doubleday) perguntando o que deveria fazer. A resposta veio do próprio Stephen King, que telefonou para Brown para dizer que ele deveria revelar a verdade na forma de um artigo, e que estava disposto a conceder uma entrevista ao jovem, para anunciar ao mundo que Stephen King era realmente Richard Bachman. O que se seguiu foi uma conferência de imprensa onde King anunciou que Bachman havia falecido. A doença? Câncer de pseudônimo, que, de acordo com o próprio King, é um tipo raríssimo da doença.

Tamanha é a imaginação de Stephen King, que, por brincadeira, o autor acabou criando uma realidade para Richard Bachman, de modo que o pseudônimo adquiriu uma pseudo-biografia. O que se segue são fatos e relatos da vida do autor Richard Bachman, como Stephen King a visionou:

Richard Bachman nasceu em Nova York e, embora sua infância seja um mistério, sabe-se que Bachman serviu por quatro anos na Guarda-Costeira, e eventualmente trabalhou por dez anos na Marinha Mercante. Eis que Bachman resolveu se mudar para um lugar mais tranquilo. O destino acabou sendo o centro rural de Nova Hampshire. Lá, ele comprou uma fazenda de gado de médio porte, e durante a noite, por sofrer de insônia crônica, Bachman escrevia suas histórias.

Bachman tinha uma esposa, seu nome era Claudia y Inez Bachman (Claudia Eschelman, após sua morte) e um filho. O filho de Bachman morreu tragicamente enquanto brincava na fazenda do pai, esgueirando-se sobre um poço e afogando-se ao cair dentro dele. Segundo dizem, este evento tornou as histórias de Bachman mais violentas e sem qualquer misericórdia para com seus personagens (incluindo crianças).

Em 1982, foi detectado em Bachman um tumor cerebral na região da base de seu cérebro; foi necessária uma cirurgia bastante complicada para a retirada do tumor. Mas a morte bateu à porta de Bachman novamente três anos mais tarde, e desta vez ele atendeu. Richard Bachman morreu em 1985 de câncer de pseudônimo, um tipo terrível de “esquizonomia”. Ele publicou cinco romances enquanto esteve vivo: “Fúria”, “A Longa Marcha”, “A Autoestrada”, “O Concorrente”, e “A Maldição”. Ninguém pôde salvá-lo.

Falecido Bachman, Claudia se tornou viúva, e em 1994, enquanto preparava para se mudar para uma nova casa, ela acabou encontrando uma valiosa caixa no sótão da fazenda do marido. A caixa continha alguns manuscritos; dentre eles um romance chamado “Os Justiceiros”, e outro chamado “Blaze”. Ela os levou para Chuck Verrill, o editor de Bachman (e que por uma estranha coincidência também era o editor de Stephen King). Lá, eles editaram os livros para que pudessem ser lançados no mercado como obras póstumas.

De acordo com alguns boatos na época de sua morte, Bachman estava pensando em escrever um livro sobre um autor que sofre um acidente, e é resgatado por uma fã psicótica, que o leva até sua isolada casa e o prende em uma cama, torturando-o por ele ter matado sua personagem favorita. Aparentemente, Bachman teria chamado este romance de “Misery”. De alguma forma, um famoso escritor de histórias de terror do Maine se apossou da ideia, lançando o livro (com seu próprio nome) dois anos após a morte de Richard Bachman.

Por muitos anos comparado a Bachman, King respondeu, certa vez, quando perguntado, o que achava de Richard Bachman: “Bachman era um sujeito desprezível, estou feliz que ele esteja morto”.
Sim, Richard Bachman está morto e sepultado, mas seu legado continua vivo na forma dos manuscritos achados por Claudia Bachman. Quase dez anos se passaram desde a publicação de “Blaze”, e os primeiros sinais de que ainda temos pelo menos mais um romance de Bachman pela frente já começaram a aparecer. Stephen King concedeu uma entrevista dizendo que gostaria de escrever uma história sobre um detetive particular corrupto em uma cidade nublada da América, assinando o romance com o nome de sua eterna sombra. Assim, concluímos que, de certa forma, Bachman continua vivo e deste modo permanecerá até que o próprio Stephen King não tenha mais nada a dizer.

Fonte: King Of Maine

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Stephen King - Uma Breve Biografia

Encontrei uma Mini-Biografia sobre S.K, achei interessante e resolvi mostrar a todos




Stephen Edwin King nasceu no dia 21 de setembro de 1947 (um domingo), na cidade americana de Portland, Maine. Stephen foi o segundo filho (e único biológico) de Donald Spansky e Nellie Ruth Pillsbury, fato que aconteceu contra todas as expectativas, uma vez que sua mãe, Ruth, fora informada que nunca poderia gerar filhos. Stephen cresceu com seu irmão adotivo, David King, e seus pais até os dois anos de idade.

Entretanto, certa noite de 1949, mais uma surpresa recaiu sobre os King. Com a desculpa de que iria sair para comprar um maço de cigarros, Donald saiu de casa para nunca mais voltar, deixando uma humilde Ruth para criar sozinha seus dois meninos. Durante os anos que se passaram, a família King se mudou de estado para estado, conforme a necessidade ditava; eles passaram por Indiana, Winsconsin, Connecticut, e finalmente voltaram para o Maine, em 1958, onde seguiram batalhando por uma vida melhor.

Foi no ano seguinte que o pequeno Stevie descobriu seu dom. Enquanto estava na casa de sua tia, King descobriu uma caixa cheia de revistas sobre histórias de terror e ficção-científica. Foi amor à primeira vista: ele logo ficou viciado nos gibis de terror da EC Comics (em especial, “Contos da Cripta”). Inspirado por autores como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe e Jack Finney, o jovem King começou a exercitar seu talento. À princípio, devido à falta de experiência do menino, suas histórias não eram muito boas ou detalhadas, entretanto, já apresentavam um charme impressionante para alguém de sua idade.




Stephen também praticava a escrita desenvolvendo críticas de programas de TV e outros tipos de artigos para o jornal caseiro de seu irmão, o “Dave’s Rag”, impresso em um mimeógrafo (comprado pelo próprio David), e vendido por pouco menos do que cinco centavos. Não levou muito tempo para que o garoto prodígio do Maine tivesse a ideia de escrever contos e vendê-los (trinta centavos, cada); ele começou a fazê-lo até mesmo dentro de sua escola, ou pelo menos até seus professores descobrirem e proibirem.




Em 1962, na época em que Stephen King e seu melhor amigo de colégio, Chris Chesley, estudavam na Lisbon High School, o rapaz escreveu seu primeiro livro. Intitulado “People, Places & Things – Volume I”, o projeto reunia diferentes contos curtíssimos escritos pelos dois amigos. Os contos de King se chamavam “Hotel at the End of the Road” (O Hotel no Fim da Estrada), “I’ve Got to Get Away!” (Eu Tenho Que Escapar!”), “The Dimension Warp” (A Urdidura da Dimensão), “The Thing at the Bottom of the Well” (A Coisa no Fundo do Poço), “The Stranger” (O Estranho), “I’m Falling” (Eu Estou Caindo), “The Cursed Expedition” (A Expedição Amaldiçoada), e “The Other Side of the Fog” (O Outro Lado da Névoa). Um ano depois, a Triad and Gaslight Books (que, na verdade, era uma editora fictícia criada por Stephen, Chris e Dave) publicou uma história maior dividida em duas partes chamada “The Star Invaders” (Os Invasores do Espaço), que possuía mais de 3 mil palavras.




Seu primeiro conto amador se chamou “In a Half-World of Terror” (a história possuia mais de 6 mil palavras), mais tarde rebatizado para “I Was a Teenage Grave-Robber”, e foi publicado em uma fanzine de terror, criada por Mike Garrett, de Birmingham, Alabama. Stevie continuou a mandar seus contos para diferentes revistas, na esperança de ganhar fama e dinheiro, sendo rejeitado várias vezes. Em 1966, Stephen King se tornou um formando na Lisbon High School, não tendo sido um aluno exemplar, mas tampouco péssimo. Mais tarde, naquele verão, King começou a escrever o esboço de um romance que a princípio se chamaria “Getting it On” (que traduzido, seria algo como “Ficando de P** Duro”), cuja premissa girava em torno de um grupo de alunos que tomam o controle de uma sala de aula e tentam fugir da polícia; tal livro só seria publicado 11 anos depois, depois de uma série de pesadas modificações, sob o nome de “Fúria” (Rage), escrito por um certo cidadão chamado Richard Bachman.




Foi apenas em 1967, já na faculdade (Universidade do Maine), onde cursava Inglês, que King publicou seu primeiro conto, profissionalmente falando. The Glass Floor (O Chão de Vidro) foi publicado na Startling Mystery Stories, o que lhe rendeu a bagatela de 35 dólares. Na Universidade, King escrevia sua própria coluna estudantil, o “Steve King’s Garbage Truck” (Caminhão de Lixo do Steve King), no Maine Campus, o jornal em circulação da faculdade. Foi também em seus anos como universitário que Stephen King conheceu, na biblioteca da universidade, o grande amor de sua vida: Tabitha Jane-Frances Spruce.




Stephen e Tabitha seguiram namorando enquanto ambos terminavam a faculdade. Em 1970, Steve finalmente conseguiu seu bacharelado em Inglês e um certificado, permitindo-lhe lecionar em colégios. Foi mais ou menos nesta época que a maior criação literária dele nasceu: O Pistoleiro. Utilizando papel verde encontrado em uma biblioteca, King começou a escrever a saga d’A Torre Negra, após uma grande inspiração que o tomara ao ler o poema de Robert Browning, “Childe Roland to the Dark Tower Came” (Childe Roland à Torre Negra Chegou), mas devido à sua precária situação financeira e ao longo caminho que a jornada de Roland Deschain começava a mostrar, King teve de por a ideia de lado. Ele começou a trabalhar como frentista, ganhando 1 dólar e 25 centavos por hora. Foi neste mesmo ano que o primeiro de seus três filhos nasceu: Naomi Rachel King.


Naomi Rachel King


Steve continuou a mandar suas histórias para revistas masculinas, sempre tentando arrecadar dinheiro para alavancar sua carreira e sua vida; seu alvo principal era a revista Cavalier. Então, em 2 de janeiro de 1971, Stephen se casou com Tabitha.  Entretanto, como não podia confiar exclusivamente na sua sorte como escritor, e agora que já estava casado e com uma filha para sustentar, King teve que continuar com seus bicos, sobrevivendo até que alguém conseguisse enxergar seu talento. Ele trabalhou em uma lavanderia industrial e depois foi um zelador. Por fim, no outono daquele ano, ele conseguiu um trabalho mais estável como professor de inglês na Hampdem Academy, ganhando um salário de 6 mil e 400 dólares por ano, isto é, pouco mais de 530 dólares por mês. Não muito depois, King acabou desenvolvendo um problema que o assombraria por mais ou menos uma década: o vício pelo álcool. Nesta época, Steve vivia com sua família em um trailer, e logo tiveram que se mudar para a cidade de Hermon, à oeste de Bangor. Ainda assim, sempre que tinha uma folga, Stephen King criava.

E no ano seguinte, ele criou algo mais: Joseph Hillstrom King e Carrie White… só que Carrie quase morreu pouco depois. King começou a escrever um conto sobre uma jovem que sofria bullying e descobriria ter poderes telecinéticos, mas, após completar algumas páginas, Stephen decidiu que não valia a pena continuar escrevendo, por não entender quase nada do mundo feminino, e jogou a história no lixo. Eis que Tabitha King recolocou o destino dos King nos eixos, apanhando os papéis da lixeira, e pedindo ao seu marido que continuasse a escrever a história. Encorajado por sua companheira, King o fez.

Terminado o manuscrito (que havia se tornado relativamente grande, de modo que agora já não era mais um conto, e sim um romance), King tentou vender Carrie, a Estranha (Carrie). Em janeiro de 1973, Stephen King entregou-o à editora Doubleday; dois meses depois, a Doubleday comprou o romance, pagando aos King 2.500 dólares para começar. No dia 12 de maio, a editora vendeu os direitos de brochura para a New American Library por 400 mil dólares, e por força de contrato, King recebeu a metade. As dificuldades financeiras cessaram e para comemorar, King comprou um secador de cabelo para sua esposa. Após o sucesso de Carrie, King pediu demissão de seu emprego como professor, e passou a dedicar seu tempo integral à escrita. Porém, pouco tempo após a primeira grande vitória profissional de Stephen, o destino lhe tirou algo muito querido.



Carrie, a Estranha, foi publicado no dia 5 de abril de 1974, mas Ruth Pillsbury King não viveu para ver isto acontecer. Aos 59 anos, a matriarca da família King faleceu de câncer de pulmão. Em seu leito,  Carrie, a Estranha (manuscrito) foi narrado para ela por Tia Emrine, e pouco tempo depois, ela partiu, mas não sem antes ter a felicidade de saber que o destino de seu filho já estava bem encaminhado. Arrasado pela morte de sua querida mãe, King se rendeu de vez ao álcool, chegando ao ponto de fazer seu emocionado discurso de despedida, no funeral dela, bêbado.

Apesar da tragédia, a vida de King só melhorou. No ano seguinte, em 1975, ele publicou Salem (‘Salem’s Lot), o que lhe rendeu o status de “escritor de horror”, o que não o deixou nem um pouco incomodado. A venda subsequente dos direitos de reimpressões lhe renderam mais 250.000. Se sua fama ainda não estava completamente solidificada, em 1977 não teve mais jeito: com a publicação de O Iluminado (The Shining), história inspirada em um fim de semana em que passou com sua esposa no Stanley Hotel, em Estes Park (um hotel com fama de mal-assombrado), ele recebeu a alcunha definitiva de escritor de horror. E também, neste ano, Stephen recebeu sua última bênção como pai, o nascimento de Owen Philip King, em 21 de fevereiro.




Owen e O Iluminado não foram as únicas criações de King em 1977. Utilizando seu antigo manuscrito de “Getting it On”, Stephen King resolveu testar sua escrita. O plano seria lançar o romance, agora rebatizado de “Rage” (Fúria), com um outro nome de autor, para ver se ele venderia tanto quanto seus outros romances, ou se as vendagens atuais eram simplesmente influenciadas por sua fama crescente. King prestou tributo a Donald E. Westlake, pegando emprestado o primeiro nome de seu pseudônimo, Richard Stark (o Stark seria aproveitado mais tarde, como sobrenome do vilão do livro A Metade Negra), e o nome da banda Bachman-Turner Overdrive, após ouvir a música “You Ain’t See Nothing Yet” (Você Ainda Não Viu Nada), para criar aquela que seria sua sombra por sete anos:  Richard Bachman.




Os anos se passaram, e o talento de King começou a ser reconhecido mundialmente, principalmente depois que grandes diretores como Brian De Palma, Stanley Kubrick e Rob Reiner adaptaram suas obras para o cinema. A década de 80 veio e se foi com a criação e publicação de Christine, O Talismã (em parceria com seu grande amigo, Peter Straub) e um de seus maiores sucessos: IT: A Coisa. Apesar de ter sido no começo desta década que foi descoberto que Richard Bachman era, de fato, Stephen King (o que obrigou-o a matar Bachman), as vitórias continuaram a vir, não só em seu mundo literário (em 89, King assinou um acordo de 35 milhões com a Viking, até então sua atual editora, pelo lançamento de quatro livros), como também em seu mundo pessoal. Após uma década afundado no álcool e nas drogas pesadas, a família de King (leia-se Tabitha) resolveu dar um basta na auto-destruição do escritor. Pouco depois da publicação de Os Estranhos (livro que reflete bem a antiga situação que King em um dos personagens principais), Tabitha reuniu todo o lixo de King, proveniente das bebidas e das drogas, e jogou tudo aos seus pés, dizendo que ou Stephen procurava se recuperar, ou ele teria que procurar outro rumo. Então, antes que a década de 80 acabasse, Stephen King procurou ajuda para ficar limpo, e conseguiu. Até hoje, Stephen King permanece sóbrio de quaisquer que tenham sido seus vícios.

A década de 90 foi quase uma década de alívio para King, com Eclipse Total, Rose Madder, Desespero, Saco de Ossos (publicado pela Simon and Schuster), mas não totalmente… uma vez mais, King recebeu um forte golpe da vida (só que desta vez, literalmente). O dia era 19 de junho de 1999, o horário era 4:30 da tarde, e o local era a Rota 5, Lovell, Maine. Enquanto fazia sua caminhada vespertina, Stephen foi atropelado por Bryan Smith, que dirigia sua mini-van e fora distraído por seu cão, que estava na traseira. A pancada foi tão forte, que King aterrissou a cinco metros, numa depressão fora da estrada. Ainda consciente, King conseguiu dar o número do telefone de sua família e foi levado ao Northern Cumberland Hospital, em Bridgton, sendo depois trazido de helicóptero para o Central Maine Medical Center, em Lewiston. King sofreu múltiplas fraturas em sua perna direita, além de ter o quadril quebrado, e o pulmão atingido. Os médicos chegaram a considerar amputar a perna direita de Steve, tamanho o estrago, mas, depois de cinco operações em dez dias, e depois de muita terapia física, King salvou sua perna… mas suas dores continuaram por meses. Com medo de que a van que o atropelara pudesse ser vendida em sites como o eBay, King a comprou por 1.500 dólares com a intenção de destruí-la com uma marreta assim que ficasse bom. Em 2002, devido às dores e lesões deixadas pelo acidente, King chegou a anunciar sua aposentadoria, mas para o alívio dos fãs, ele acabou voltando atrás, completando a saga A Torre Negra e continuando na ativa até hoje. Em 2003, King recebeu o The National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters.

Desde o começo de sua carreira até hoje, King publicou exatos 44 romances (contando com os 8 livros da saga A Torre Negra; Joyland e Doctor Sleep, e sem contar o livro-roteiro Storm of the Century, e o romance inacabado The Plant), 10 coletâneas de contos e noveletas, 8 livros sob seu pseudônimo, Richard Bachman (incluindo Os Livros de Bachman), e mais 6 livros na categoria de não-ficção, totalizando 68 publicações. Além disto, as obras de King já foram adaptadas para as mais diversas mídias, como histórias em quadrinhos, seriados, e peças de teatro. King se tornou um ícone da cultura pop, reconhecido por várias gerações e nações, sendo admirado, imitado, e até mesmo parodiado. Por incrível que pareça, Stephen King não mostra qualquer sinal de que está para parar. Em 2014, ele publicará Mr. Mercedes, romance sobre um detetive aposentado que corre contra o tempo para impedir que um terrorista psicótico realize seu próximo atentado; e Revival (seu 70º livro publicado), romance de sinopse ainda desconhecida. Além desses, King ainda está devendo para seus Leitores Fiéis o último romance da trilogia d’O Talismã, a ser escrito em parceria com Peter Straub. Para os contentes fãs, isto só significa mais e mais sustos e emoções, que apenas o Mestre do Horror Moderno seria capaz de provocar.
Alguns dos Importantes Livros de Stephen King


Stephen King atualmente vive com sua esposa Tabitha e seus três filhos em Bangor, Maine.

Mansão onde Stephen King mora té hoje com a Mulher Tabitha King


Abaixo algumas animações sobre King e seus Livros: