sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Richard Bachman: A História
Richard Bachman é o pseudônimo que Stephen King usou para escrever alguns romances, com duas intenções: a primeira, de descobrir se as vendagens de seus livros se davam pelo seu talento como escritor, ou apenas pela fama de seu nome/sorte (para isso, propositalmente, Stephen lançava seus livros de Bachman sempre com o menor marketing possível). A segunda: poder publicar mais livros, uma vez que, de acordo com as editoras, era comercialmente nocivo ficar inflando o mercado com vários livros do mesmo autor em um único ano (e, como sabemos, no começo de sua carreira, King gostava de publicar vários livros ao ano). O alter-ego de King é conhecido por escrever histórias cujo sobrenatural é pouco ou quase nulo, focando essencialmente nos personagens que, em 90% de seus livros, vivem algum drama que poderia, teoricamente falando, acontecer com qualquer pessoa (a exceção seria Os Justiceiros).
Existe uma outra característica nos livros de Bachman, que não vem ao caso revelar por se tratar de um spoiler, mas os leitores fiéis provavelmente adivinharão que característica é esta. Apesar disto, os romances de Bachman são escritos de maneira excelente. King escreveu um punhado destes livros, e mesmo após ser desmascarado, deu um jeitinho de continuar a soltar aqui e acolá alguma história de seu pseudônimo.
Como já mencionado, durante os anos 70, determinado a provar a si mesmo que suas vendagens se davam pelo seu talento e não por sorte ou fama, Stephen King criou “Gus Pilsbury”, com a intenção de usar tal nome (batizado em homenagem ao seu avô, que tinha o mesmo nome) para escrever outras histórias mais pesadas e menos “pop” do que as que já escrevia na época. Antes de lançar Fúria, King acabou mudando de ideia quanto ao nome que deveria usar para assinar o livro. O nome selecionado foi uma homenagem ao autor de romances de crime, Donald E. Westlake, que também possuía um pseudônimo: Richard Stark. O sobrenome Bachman, segundo reza a lenda, veio da Bachman-Turner Overdrive, uma banda que King escutava no momento em que pensava no assunto.
Uma outra curiosidade é que King ainda aproveitou o pseudônimo de Westlake em 1989, quando publicou A Metade Negra (romance que foi dedicado a Richard Bachman), onde a relação Stephen King/Richard Bachman refletia a de Thad Beaumont/George Stark (tirando a parte em que o pseudônimo se materializava de verdade, querendo se vingar de seu criador, é claro).
Obviamente, não demorou muito para que os leitores de Bachman lentamente fossem associando o autor a Stephen King, que sempre negava veementemente ser o tal. Apesar disto, como provocação, King sempre deixava algumas pistas em suas obras que apontavam a verdadeira identidade de Bachman. Um bom exemplo é o uso da fictícia cidade “Gates Falls”, como cenário para Fúria, cidade esta que já havia usada no conto “Último Turno”, do livro Sombras da Noite. Já em A Maldição, um dos personagens faz menção ao próprio Stephen King, o que pode ser tanto interpretado como uma dica, quanto uma jogada para tentar livrar seu nome. Não funcionou.
A Maldição foi basicamente o livro que assassinou seu autor. Foi por causa dele que o segredo de King foi descoberto: um rapaz chamado Steve Brown, que trabalhava como balconista de uma livraria, começou a fazer as conexões, que todos já faziam, entre Bachman e King. Porém, inconformado com as negativas de Stephen, Brown resolveu cavar fundo em uma investigação que o levou até a Library of Congress (Biblioteca do Congresso), localizada em Washington, D.C. Lá, Brown acabou por encontrar um documento de direitos autorais que responsabilizava Stephen King pela publicação de Fúria. Brown tirou cópias dos documentos e os mandou, juntamente com uma carta, para a editora de King (que na época ainda era a Doubleday) perguntando o que deveria fazer. A resposta veio do próprio Stephen King, que telefonou para Brown para dizer que ele deveria revelar a verdade na forma de um artigo, e que estava disposto a conceder uma entrevista ao jovem, para anunciar ao mundo que Stephen King era realmente Richard Bachman. O que se seguiu foi uma conferência de imprensa onde King anunciou que Bachman havia falecido. A doença? Câncer de pseudônimo, que, de acordo com o próprio King, é um tipo raríssimo da doença.
Tamanha é a imaginação de Stephen King, que, por brincadeira, o autor acabou criando uma realidade para Richard Bachman, de modo que o pseudônimo adquiriu uma pseudo-biografia. O que se segue são fatos e relatos da vida do autor Richard Bachman, como Stephen King a visionou:
Richard Bachman nasceu em Nova York e, embora sua infância seja um mistério, sabe-se que Bachman serviu por quatro anos na Guarda-Costeira, e eventualmente trabalhou por dez anos na Marinha Mercante. Eis que Bachman resolveu se mudar para um lugar mais tranquilo. O destino acabou sendo o centro rural de Nova Hampshire. Lá, ele comprou uma fazenda de gado de médio porte, e durante a noite, por sofrer de insônia crônica, Bachman escrevia suas histórias.
Bachman tinha uma esposa, seu nome era Claudia y Inez Bachman (Claudia Eschelman, após sua morte) e um filho. O filho de Bachman morreu tragicamente enquanto brincava na fazenda do pai, esgueirando-se sobre um poço e afogando-se ao cair dentro dele. Segundo dizem, este evento tornou as histórias de Bachman mais violentas e sem qualquer misericórdia para com seus personagens (incluindo crianças).
Em 1982, foi detectado em Bachman um tumor cerebral na região da base de seu cérebro; foi necessária uma cirurgia bastante complicada para a retirada do tumor. Mas a morte bateu à porta de Bachman novamente três anos mais tarde, e desta vez ele atendeu. Richard Bachman morreu em 1985 de câncer de pseudônimo, um tipo terrível de “esquizonomia”. Ele publicou cinco romances enquanto esteve vivo: “Fúria”, “A Longa Marcha”, “A Autoestrada”, “O Concorrente”, e “A Maldição”. Ninguém pôde salvá-lo.
Falecido Bachman, Claudia se tornou viúva, e em 1994, enquanto preparava para se mudar para uma nova casa, ela acabou encontrando uma valiosa caixa no sótão da fazenda do marido. A caixa continha alguns manuscritos; dentre eles um romance chamado “Os Justiceiros”, e outro chamado “Blaze”. Ela os levou para Chuck Verrill, o editor de Bachman (e que por uma estranha coincidência também era o editor de Stephen King). Lá, eles editaram os livros para que pudessem ser lançados no mercado como obras póstumas.
De acordo com alguns boatos na época de sua morte, Bachman estava pensando em escrever um livro sobre um autor que sofre um acidente, e é resgatado por uma fã psicótica, que o leva até sua isolada casa e o prende em uma cama, torturando-o por ele ter matado sua personagem favorita. Aparentemente, Bachman teria chamado este romance de “Misery”. De alguma forma, um famoso escritor de histórias de terror do Maine se apossou da ideia, lançando o livro (com seu próprio nome) dois anos após a morte de Richard Bachman.
Por muitos anos comparado a Bachman, King respondeu, certa vez, quando perguntado, o que achava de Richard Bachman: “Bachman era um sujeito desprezível, estou feliz que ele esteja morto”.
Sim, Richard Bachman está morto e sepultado, mas seu legado continua vivo na forma dos manuscritos achados por Claudia Bachman. Quase dez anos se passaram desde a publicação de “Blaze”, e os primeiros sinais de que ainda temos pelo menos mais um romance de Bachman pela frente já começaram a aparecer. Stephen King concedeu uma entrevista dizendo que gostaria de escrever uma história sobre um detetive particular corrupto em uma cidade nublada da América, assinando o romance com o nome de sua eterna sombra. Assim, concluímos que, de certa forma, Bachman continua vivo e deste modo permanecerá até que o próprio Stephen King não tenha mais nada a dizer.
Fonte: King Of Maine
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